terça-feira, 6 de julho de 2010

A menina solitaria

Era uma criança. Uma menina. Seus olhos azuis brilhando apenas pelo brilho da lanterna, mostrava raiva e medo. Seus cabelos longos de tão sujos não dava pra definir a cor. Um cobertor cheio de poeira e mofo era sua roupa. Sua magreza não era tanta pra uma criança que tinha ficado dois meses sem comida. Sua boca suja e seca fazia todos não quererem saber a resposta da outra pergunta.
Aline abraçava a criança com medo e agonia. E a menina passou a confiar nela. A abraçar a nova protetora como uma filha abraça uma mãe. Magali ainda rangia de dor. Paulo, Luciano e Diogo estavam na porta ainda assustados e mirando a arma para a garotinha que mal devia ter cinco anos.
Paulo abaixa a arma e corre para Magali.
- Você está bem Magali.
A mordida foi forte mas não foi de arrancar pedaço. Luciano e Diogo também abaixam as armas. Luciano se aproxima com cautela da menina nos braços de Aline.
- Solta ela Aline.
- Ela não me solta.
Luciano se aproxima do rosto da menina e de Aline. Aline respira fundo. Ele nunca esteve tão próximo dela. Seu hálito e sua respiração podiam ser sentidas. Mas ele queria ver a menina em seu colo e não Aline.
- Olá garotinha? Qual é o seu nome?
Ela esconde o rosto nos cabelos de Aline. Aline fala meio sufocada pelo aperto dos braços da menina.
- Eu sou Aline? E o seu nome?
A menina tira o rostinho dos cabelos de Aline e fala manhosamente e com voz tremendo.
- Abigail. Onde estão meu papai e minha mamãe?
- Está aqui a quanto tempo Abigail? - Pergunta Magali já nem lembrando da mordida no braço.
Ela não responde. Diego é que fala:
- Porque não levamos ela lá para baixo Aline? O Lu, a Magali e o Paulo ficam ai investigando.
Aline com carinho se vira para a menina.
- Ninguém vai te fazer mal viu.
- O bicho papão. - Diz ela tremendo de medo.
- Nos o destruimos. - Diz Diogo, oferecendo a mão a menina para descer do braço de Aline.
Abigail pareceu acreditar e desce do colo de Aline, segurando na mão de Diogo e de Aline também.
Luciano apenas fala para os três:
- Tomem cuidado.
Os três voltam pelo mesmo corredor escuro e descem pelo mesmo buraco. Aline primeiro desce pelo buraco, e vê que Cidinha, sua tia e Sabrina ainda estavam lá na sala de video.E quando a garotinha desce pelos braços de Diogo até os braços da Aline as três soltam um grito de susto. E vendo as três com medo daquela linda garotinha fez Aline se sentir um pouco recompensada. Será que aquela garotinha seria a família dela. E quando Diogo desceu do buraco e colocou a mão em seus ombros, ela olhou para ele. Quem era aquele rapaz alto e forte que sempre esteve ali, mas ela nunca olhou. Aline sorriu para ele, ele retribuiu o sorriso. Será que essa poderia ser a nova família de Aline?
- O que é isso Aline? - Pergunta sua tia isterica.
- É uma garotinha. Fale baixo para não assusta-la.
- O que ouve com os outros? - Pergunta preocupada Cidinha.
- Estão lá em cima! - Diz irritada Aline pela altura da voz das duas.
- O que você vai fazer com ela? - Pergunta Sabrina já com um tom mais baixo.
- Eu vou dar uma banho nela.
- Deixe que eu cuido dela...
- Não! - Diz Aline sorrindo. - Eu cuido.
Aline a leva em seu braço junto de Diogo até o seu quarto. Ela se vira para ele antes de entrar.
- Daqui pode deixar comigo. - Diz Aline rindo.
- Parece que você assumiu mesmo a responsabilidade. - Diz Diogo rindo.
- Preciso de ajuda. Depois do banho você podia me ajudar.
- Sim. Claro. É só ir me chamar.
Aline entra no quarto e a coloca na cama.
- Você vai ficar aqui comigo por enquanto tá?
- E o meu papai e minha mamãe?
- Eu vou ficar com você até eles voltarem. Está bem?
- Tá. - Diz a menina sorrindo pela primeira vez.
- Mas primeiro vamos tomar um banho? - Diz Aline tirando a coberta suja dos ombros dela. E vendo que ela não tomava banho a dias mesmo.
Ela deixa o cobertor no chão mesmo. Sabia que quando saisse do banheiro aquele cobertor velho não estaria mais ali. As duas entram no banheiro. Aline enche a banheira e vê arranhões no braço da menina.
- Tem quanto tempo que você estava ali sozinha?
- Muito tempo. - Diz a pequenininha abaixando a cabeça.
- Como se separou de seus pais?
- Eu estava brincando no parquinho, ai quando abri os olhos estava numa sala branca. Me enfiaram agulh...
- Tá. - Diz Aline não querendo ouvir o resto. Ela puxa a menina para dentro da banheiro e lava o cabelo que surge num loiro claro. A pele branca. A água da banheira chegou a ficar marrom. Quando as duas saíram como sempre não tinha sinal de cobertor nenhum e macacãozinho em cima da cama exatamente do tamanho da menina. Aline coloca a garotinha na cama e veste o macacãozinho. A menininha com carinho fala:
- Me desculpe por morder sua amiga. Pensei que era um dos Etes.
Aline sorri e fala:
- Tudo bem. Ela entende.
Aline continua a vestila com o macacão com um sorriso bobo no rosto quando a Abigail a surpriende novamente.
- Você vai ser minha mamãe agora?
Aline sorri para a menina e fala:


- Pode ser. Mesmo eu sendo muito nova. Mas pode ser.
De repente batidas na porta. Magali entra e se surpreende ao ver a meninha tão bem arrumada.
- Nossa. Essa é aquela mesma garotinha. Está linda.
- É claro. - Diz Aline mostrando para ela a garotinha com orgulho.
- Você está com fome Abigail? - Pergunta Magali se ajoelhando para ver a menina.
- Não muita.
- Não muita?
- Acho que sim. - Ela responde rápido.
- Então o tio Diogo está lá fora para te levar para o refeitório. Onde está cheio de comidas maravilhosas para você.
- Eu vou com você Abigail.- Diz Aline já segurando a mão da menina. Mas brutalmente Magali segura Aline.
- Não. Vai só ela. - Diz Magali seria. Aline estranhando deixa a garotinha ir abrir a porta e fechar. E quando a porta se fecha Aline olha para Magali e percebe algo diferente.
- O foi? O que vocês descobriram?
- Aline. É impossível uma garota de cinco anos estar vivendo sozinha durante dois meses.
- O que você está querendo dizer com isso Magali?
- Aline aquele lugar é puro metal. Não tem nem insetos para ela comer.
Aline não podia acreditar. No que Magali estavam falando.
- Ela era a unica naquele lugar. Naquele andar. E antes de entrarmos na nave vimos crianças como Etes.
- Você está querendo dizer que aquela criança é um... aquele medo que ela tinha nos olhos... aquele jeito de falar.
- Eles nos estudaram muito bem Aline. Nos temos provas disso.
- Ela estava fingindo? Como podem ter certeza? - De repente Aline se lembra que eles tinham levado Abigail. - Para onde vocês a levaram?
Aline sai doida pelo corredor. Vê a pequena garotinha chorando sendo segurada por Luciano e Paulo a levando para a temivel sala de cirurgia.
- Não! - Vendo a garotinha gritando e chorando Aline teve certeza que aquela garotinha era humana. Mas como provar. Ela corre para cima de Luciano e Paulo, mas Diogo a segura. - Não façam nada com ela. Não!
Eles fecham a porta da sala de cirurgia. Aline chorando olha para todos no corredor. E encontra o olhar de Cidinha que tremia de medo.
- Prima! Será que você não entende! É por nossa segurança! - Diz Cidinha sendo segurada pela mãe .
- Segurança? - Grita Aline aos berros. - Vocês só pensa em você! Eu fiz tudo para te ajudar a encontrar seu Lu! E quando você encontra nem olha mais pra mim. Eu não sou mais ninguém pra você! Você é uma egoista! Tudo o que te interessa é que sua vidinha seja perfeita! Igual era lá na terra! Meus pais sempre tetaram melhorar, mas nunca eram bons o bastante para vocês duas! Nunca fomos a altura de vocês! Nunca!

Cidinha chorava. Mas Aline queria soltar tudo. Tudo que sentia por dentro. Mas não podia falar. Não podia falar que o homem que era marido dela era o homem que Aline amava. Não podia dizer que Cidinha fazia ela se sentir uma derrotada.

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