O quarto estava escuro. Mas dava para perceber que aquele quarto não era uma prisão como deveria se imaginar. Era um quarto bem apertado, de três metros de largura e quinze de cumprimento. O teto muito baixo. Aline de 1,60 de altura era fácil encostar no teto. Ela estava paralisada na porta daquele quarto sem acreditar que era ali que ela iria ficar depois de um pesadelo tão grande. Esperava a qualquer momento algum dos Etes chegarem e puxarem ela de novo para fora dizendo.
- Desculpe foi um erro. - Ou quem sabe: - Você acreditou mesmo que você iria ficar ai.
Nem queria acender a luz. Mas ela foi acesa. E ao olhar para o lado um homem alto estava com a mão no interruptor.
- Vai ser mais fácil ver com a luz acesa. - Ele era alto e forte. E ao fazer esse favor a Aline se deita novamente em um das cinco camas que tinha apertadas no local.
- Quem é você? E porque parece estar tão acostumado aqui? - Diz ela não entendendo ele conseguindo se deitar tranquilamente como se estivesse no seu próprio quarto.
- Bem. Eu sou Luciano Aron, e num quarto desse não é difícil se acostumar. E estou aqui a duas semanas.
- Duas semanas? - Diz Aline indo para se sentar na cama. Mas Luciano com a rapidez a segura e fala:
- Antes é melhor você ir tomar um bainho. - Diz ele apontando uma outra porta no fundo do quarto que parecia muito mais um corredor de tão estreito.
Aline caminha até a porta e abre com surpresa. E um dos banheiros mais chiques que ela já tinha visto. Uma banheira redonda, lavatório,um espelho enorme e um macacão branco do mesmo que Luciano estava vestido. Ela fecha a porta e tira as botas sujas enquanto escuta a voz de Luciano vindo do quarto.
- Os ataques já começaram a varias décadas querida. O povo é que não queria ver. Tem gente que está aqui a vinte anos.
Aline tira seu vestido molhado e sujo de barro. E joga no chão branquinho sujando-o totalmente com o barro.
- E eles não machucam você?
- Bem. A mim só tiram uma agulhada de sangue por dia. É assim que marco os dias.
Aline liga a banheira, entra e deita, finalmente conseguindo relaxar.
- E você fica preso aqui o dia inteiro?
- Não. Temos duas horas de almoço. E duas horas de janta que nos reunimos no refeitório com todo os que estão presos aqui.
Alguns minutos ela sai do banheiro já vestida com seu macacão. Luciano surpreso se levanta da cama e com um sorriso nos lábios fala:
- Você ficou bem no macacão.
- Obrigada.
Ela se senta na mesma cama de Luciano e fala com medo:
- Você já tentou fugir daqui?
- Fugir daqui pra que? Aqui eu tenho comida todo dia. Um quarto que permanece sempre limpo.
- Quem limpa.
- Por acaso você viu suas roupas sujas quando saiu da banheira?
Aline assustada percebe que nem notou. E correndo vai ao banheiro e vê tudo limpinho como se ela nunca tivesse entrado lá dentro toda suja de barro.
- Quem limpa?- Pergunta ela assustada para Luciano.
- Eu não sei. Mas sempre quando vou do quarto ao banheiro tudo está limpo de novo.
Aline se senta de novo na cama apavorada.
- Eles pesquisaram muito antes de vir nos capturar. E criaram uma realidade para nos sentirmos em casa. Ou na escola.
Aline olha em volta e percebe que de verdade aquele quarto parecia muito com um quarto de um internato.
- Mas não temos aulas. E sim uma bateria de exames.
- Bateria de exames?
- Sim. Todas as manhas. Eles nos fazem correr cinco minutos numa esteira e tiram nosso sangue e depois o nosso tempo é livre.
Aline não poderia acreditar. Será que ficará uma semana naquele lugar? Ou um mês? Um ano? Vinte anos? A vida toda? Não. Dessa vez era diferente. Dessa vez foi um ataque mais grave. Televisões e radio tinham descoberto tudo. Não ficaria tanto tempo naquela nave. Eles os queriam como escravos e nada mais. Aline só queria uma coisa naquele momento. Achar Cidinha. Queria passar, o que tivesse passando junto dela e nada mais.
Aline se levanta da cama de Luciano e deita na sua. Queria descansar, dormir. Mas não queria se acomodar como Luciano se acomodou. Aquela não seria sua casa. Nunca.

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